Arquivo para dezembro \14\UTC 2008

Os modelos do metrô

Aqui eu ando muito de metrô. E eu gosto: é sujo, não cheira bem, é barulhento e cheio de gente estranha. E tais qualidades servem tanto para os trens quanto para as estações.

No meio desse monte de gente estranha e sujeira existe um tipo especial que surge da fusão dos dois elementos anteriores: os músicos de metrô. Entre sujeitos habilidosos e eternos amadores iniciantes, eles garantem a trilha sonora daquele esgoto de gente todos os dias, desde bem cedo até às primeiras horas da madrugada. São franceses, leste-europeus e asiáticos. Os latinoamericanos são poucos.

Recentemente resolvi começar a fotografá-los. Como gosto de fotografar músicos, resolvi sacar minha câmera pelo metrô e, mesmo com a evidente hostilidade dos passageiros para com a minha quase intromissão no trajeto-fudum diário de cada parisiense, disparo alguns cliques. Sempre mirando nos músicos, claro.

Entre algumas fotografias médias e um monte de decepções, o melhor resultado foi descobrir que os músicos do metrô de Paris são ótimos modelos. Famintos pelos trocadinhos, ao ver o saque de uma câmera fotográfica os suj

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eitos logo fazem mil poses, sorrisos. Alguns até rebolam e fazem poses ao meu comando. Sempre na confiança de que eu seja algum turista bobo recheado de dólares pronto para serem doados.

Enfim, comecei a me aproveitar disso. Apesar da desilução dos músicos que os deixam de cara feia bem rápido, já que descobrem que eu sou tão duro quanto eles e que meu espírito-turístico anda de mau humor, me arrisco quase diariamente em busca de boas fotografias.

Prometo que logo trarei à este entulho de insultos à cidade-luz mais fotografias musicais-subterrâneas. E, porque não, me aventurar fotograficamente entre os puteiros, sex shops e outras bocas-quentes do pedaço. Sei que existem algumas prostitutas na rue Saint-Denis que, desde o começo do fim da tarde, se colocam na labuta de oferecer coisas mais duvidosas e mal-cheirosas do que um camembert estragado. Espero fotografá-las logo.

Chers voisins,

A essência está em não convidar os vizinhos

A essência está em não convidar os vizinhos

E a cara-de-pau reina vestida de sinceridade em Paris. Não sei se é praxe, mas já vi anúncios da mesma espécie em outros prédios por aí: o lance é você avisar os vizinhos que você, em determinada noite, fará o maior escarcéu do condomínio desde a Revolução Francesa. Particularmente, acho o sistema democrático pois se algum condômino ameaçar cortar sua cabeça em razão do eventual carnaval-fora-de-época, você pode dizer o batido “mas eu avisei!”.

Embora pareça bizarro, nada nos distancia dos parisienses, já que temos a técnica, 100% nacional, de mandar um aviso com os dizeres “vou chegar atrasado, atrase-se também”, como se o problema não fosse a falta de tempo, e sim a espera.

Enfim, o aviso acima diz: “Caros vizinhos, celebraremos nosso aniversário esta noite no 5º andar. Nós nos desculpamos com antecedência pelo incômodo ocasionado. Thomas e Fabien“. A festa estava ótima: todos os convidados foram. E os não-convidados também, como eu. Dois policiais, também não-convidados, apareceram por lá. Embora o atraso, não mandaram o aviso. Inélégants!